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id da página: 3613 Aristóteles Entendimento Aristóteles

Aristóteles Entendimento

Aristóteles — Entendimento Passivo e Agente

O ENTENDIMENTO PASSIVO

Acerca da parte da alma pela qual esta conhece e pensa, seja uma parte separada ou não segundo a extensão, mas apenas logicamente, deve-se considerar que caráter tem e como se produz, em suma, a inte-lecção. Ora, se o entender é análogo ao sentir, consistirá em um certo padecer sob a ação do inteligível, ou em alguma outra coisa deste tipo. Esta parte da alma tem que ser, pois, impassível, porém susceptível de receber a forma, e em potência como ela, mas não ela mesma, e o entendimento tem que se comportar com os inteligíveis do mesmo modo que a faculdade sensitiva com os sensíveis. É mister, ademais, visto que entende todas as coisas, que seja sem mescla, como diz Anaxágoras, para que mande, isto é, para que conheça; pois ao aparecer juntamente, estorva e intercepta o alheio; de modo que não tem nenhuma natureza que não seja a de ser em potência.

Assim, a parte da alma chamada entendimento (chamo entendimento aquilo pelo qual a alma pensa e compreende) não é nenhuma coisa em ato antes de pensar. E por isto não se pode dizer razoavelmente que o corpo esteja mesclado, pois adquiriria alguma qualidade determinada, seria frio ou quente, ou inclusive teria algum órgão, como ocorre com a faculdade sensitiva; porém, de fato, não o tem. E têm razão os que dizem que a alma é o lugar das ideias, salvo que nem o é toda ela, a não ser sua parte intelectiva, nem é em ato as ideias, mas em potência. Porém, que não é igual a impassibilidade da faculdade sensitiva à da intelectiva, torna-se claro se observarmos os órgãos sensoriais e o sentido, pois o sentido não pode sentir depois de uma sensação muito intensa; por exemplo, o som depois de sons altos, nem se pode ver ou cheirar depois de sentir cores ou odores fortes; enquanto que o entendimento, quando entendeu algo muito inteligível, não deixa por isso de entender as coisas inferiores, mas, pelo contrário, o entende mais; pois a faculdade sensitiva não existe sem corpo, ao passo que o entendimento é separável. (...)

Poder-se-ia porém perguntar: se o entendimento é simples e impassível e nada tem de comum com coisa alguma, como diz Anaxágoras, como entenderá, visto que entender é um certo padecer? Por outro lado, poder-se-ia perguntar se é também inteligível ele próprio. Com efeito, ou se encontrará o entendimento nos outros inteligíveis, se não é ele mesmo inteligível por outra coisa, e se o inteligível é algo especificamente uno, ou terá algo mesclado, que o fará inteligível como as demais coisas. Ou então, segundo nossa distinção anterior do padecer em virtude de um elemento comum, diremos que o entendimento é de algum modo em potência os inteligíveis, porém em ato algum, antes de entender: potencialmente, do mesmo modo que em uma tabuinha onde não há nada escrito em ato; ocorre exatamente com o entendimento. E ele próprio é inteligível como os inteligíveis. Pois no caso dos objetos imateriais, é o mesmo o que entende e o entendido; com efeito, a ciência teorética e o entendido por ela são o mesmo. (Falta investigar a causa de que não se pense sempre). Por outro lado, nos entes que têm matéria está em potência cada um dos inteligíveis. Portanto, o entendimento não pertencerá a estes (pois o entendimento é potência deste tipo de objeto sem sua matéria), ao passo que a ele pertencerá a inteligibilidade.

(De Anima, III, 4, §§ 1-5, 9-12.)

0 ENTENDIMENTO AGENTE


Porém, visto que na natureza inteira algo é matéria para cada gênero (e isto é o que é em potência todos esses entes), e outra coisa é a causa e o agente, por produzi-los todos, como ocorre com a arte no referente à matéria, é mister, do mesmo modo, que na alma se encontrem também estas diferenças. E há o entendimento que é tal que se faz todas as coisas, e o que é tal que as faz todas, à maneira de um certo hábito, como a luz; pois em certo sentido também a luz faz serem cores em ato às que são cores em potência. E este entendimento é separável, impassível e sem mescla, já que é por essência uma atividade. Pois sempre é mais digno o agente que o paciente, e o princípio que a matéria. A ciência em ato é idêntica à coisa, mas a ciência em potência é anterior temporalmente no indivíduo, embora em absoluto não seja anterior no tempo. Não se pode porém dizer que umas vezes entende e outras não entende. Somente uma vez separado é o que é verdadeiramente, e somente isto é imortal e eterno. Porém não temos presente, porque é impassível ao passo que o entendimento passivo é corruptível, e sem aquele nada pensa.

NOTA: A Interpretação deste último parágrafo, e de todo o capitulo em geral, é extremamente problemática. Cf. a edição de Hicks, pág. 509; a tradução de Tricot, págs. 181-184, e a Introdução de Boss a sua edição da Metafísica, págs. CXLIII e ss.


(De Anima, III, 5.)